
Autor de novelas desde a década de 1960, Benedito Ruy Barbosa se notabilizou por suas tramas rurais que exploravam um interior do Brasil até então pouco conhecido. Ele, no entanto, desenvolveu obras que circulam por outros universos. Duas delas ainda inéditas e engavetadas pela Globo, que temeu polêmica.
Logo após finalizar a lúdica Meu Pedacinho de Chão, que teve remake exibido no horário das seis em 2014, Benedito entregou à Globo um outro projeto para a mesma faixa. Com o título de E Se Ele Voltar?, a novela falava sobre o retorno de Jesus como um homem comum.
“É uma história que escrevi para as 18h, sobre dois estudantes de medicina, que têm sonhos. Um deles fala, brincando, em pegar o Santo Sudário, que tem o sangue de Cristo, e fazer o exame do DNA. A novela começa com esta brincadeira, e também cheia de amor e romance. Mas, de repente, eles já médicos, cirurgiões, encontram uma caixinha numa praia”, contou o novelista em entrevista ao UOL, em 2016.
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“Eu mostro o [médico nazista Josef] Mengele morrendo [em Bertioga] e mostro uma caiçara na praia, que encontra a caixa bem fechada, devolvida pelo mar. Quando estes médicos conseguem abrir esta caixa, eles encontram um pequeno pedaço do Santo Sudário. Ele consegue o DNA, acha que conseguiu o DNA de Cristo”, detalhou Benedito.
Veto à novela polêmica
A trama, que na época chegou a ser cogitada até para a faixa das 21h, acabou sendo engavetada pelo então diretor de Dramaturgia do canal, Silvio de Abreu, que considerou a história polêmica. Como o horário nobre vinha com problemas de baixa audiência, Abreu decidiu não levar o projeto adiante, o que rendeu um atrito com Benedito.
“O [Carlos Henrique] Schroder [então diretor-geral da Globo] aprovou a sinopse, mas o Silvio de Abreu vetou. Eu quis saber por quê? ‘Ah, porque você mexe com nazismo’. Li uma nota no Estado de S. Paulo dizendo que ele falou isso”, explicou o autor.
“Aí eu falei: ‘ele não leu a sinopse’. Não falo em nazismo, não levanto em momento algum questões sobre o nazismo, apenas falo do Mengele, digo que ele é um cientista que se utilizou dos campos de concentração para fazer experiências com seres humanos e veio morrer no Brasil. Eu posso tirar o Mengele da história. O importante é achar a caixa, com o Santo Sudário lá dentro. Aí eu falei: esse cara não pode ler sinopses. Não entendeu a sinopse”, complementou Benedito.
O conflito entre os dois chegou a respingar em outro trabalho. Em 2016, quando desenvolveu Velho Chico para o horário das nove em parceria com o neto, Bruno Luperi, e com a filha, Edmara Barbosa, Benedito exigiu que não houvesse interferências de Silvio de Abreu em sua novela. De acordo com o escritor, o pedido foi prontamente atendido por Carlos Henrique Schroder, que ainda comandava a Globo.
Globo recusou última novela
Dois anos depois, Benedito Ruy Barbosa apresentou à Globo aquela que foi sua última novela inédita. Com o título de O Último Beijo, a derradeira trama do novelista seria bem diferente do ambiente rural que o consagrou.
Era um folhetim urbano e contemporâneo que ele escreveu em parceria com neto, Marcos Barbosa, seu colaborador no projeto. O autor já estava com a sinopse pronta e chegou a escrever 16 capítulos, mas a Globo não aprovou a trama, que seria para a faixa das 19h — horário para o qual ele nunca escreveu.
Após a recusa, já com a saúde debilitada, Benedito Ruy Barbosa chegou a supervisionar informalmente o trabalho da filha, Edmara, e do neto, Bruno, no desenvolvimento de Arroz de Palma — novela que a Globo ainda promete tirar da gaveta.
O contrato do autor com a Globo se encerrou em 2020. Desde então, Benedito passou a levar uma vida reclusa em sua fazenda, no interior de São Paulo. De lá, acompanhou de longe os remakes de Pantanal (2022) e Renascer (2024), ambos assinados pelo neto, Bruno Luperi.
Nos últimos anos, Benedito Ruy Barbosa passou boa parte do tempo livre assistindo suas antigas novelas no Globoplay. A última que acompanhou foi Terra Nostra (1999), reprisada pela Globo até maio na faixa Edição Especial.





