
Autor que fez sucesso com suas tramas rurais, Benedito Ruy Barbosa nos deixou nesta terça-feira (7), mas deixou dezenas de novelas, muitas delas na Globo, onde construiu grande parte de sua carreira. O autor, no entanto, teve que desafiar os chefões da emissora em pelo menos duas ocasiões.
Uma delas aconteceu no fim da década de 80, quando Benedito queria produzir uma trama ambientada no Pantanal. Na época, a obra chegou a entrar em fase de pré-produção na Globo, onde seria feita para o horário das seis com o título provisório de Amor Pantaneiro.
O fenômeno Pantanal
O projeto, porém, acabou sendo cancelado por conta dos alto custos e a dificuldade para gravar na região pantaneira. Foi então que Benedito deixou a Globo rumo à extinta TV Manchete. E a insistência dele deu certo.
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Exibida em 1990, Pantanal se tornou um fenômeno de audiência que fez a Manchete ameaçar a Globo no ibope. Três anos depois, a emissora carioca já deu um “atestado de culpa” e acertou o retorno do novelista com pompa no horário nobre para escrever Renascer.
Anos depois do episódio, em 2022, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, — o mandachuva da Globo à época — admitiu o erro ao descartar a produção de Pantanal. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o ex-chefão da rede contou que a emissora considerou a ideia da trama como inviável por conta do orçamento. “Foi um erro”, afirmou ele.
Benedito Ruy Barbosa x Silvio de Abreu
Outro importante episódio de Benedito Ruy Barbosa na Globo foi quando ele exigiu que Silvio de Abreu, então diretor de Dramaturgia, não mexesse em nada na sua nova novela. Essa foi a condição imposta pelo novelista para desenvolver Velho Chico (2016), sua última novela inédita, que foi ao ar na faixa das 21h.
“Pedi ao [Carlos Henrique] Schroder [então diretor-geral da Globo], de quem sou amigo e aprendi a admirar, para que não deixasse, de forma alguma, o Silvio de Abreu ter qualquer ingerência na novela. Eu faria a novela das 21h com a minha filha, Edmara, e o meu neto, Bruno, porque não estou mais em condições de ficar 12 horas, 14 horas no computador em função do AVC que tive”, contou ele em entrevista ao colunista Maurício Stycer em 2016.
Benedito explicou a condição imposta. “O acordo foi: quem vai palpitar na novela serei eu, na qualidade de supervisor, o Luiz Fernando [Carvalho], na qualidade de diretor, o Bruno e a Edmara. E isso foi respeitado totalmente”, afirmou.
“Na minha novela ele não põe a mão”
Na época, o novelista contou como foi a conversa com o executivo. “Veio Velho Chico e eu falei para o Schroder: ‘lamento muito. Não tenho nada contra o Silvio de Abreu, é um autor reconhecido na Globo, mas eu não quero que ele leia sinopse minha. E não quero que ele palpite na minha novela. Não quero que ele leia e que ele ponha a mão na novela’. E o Schroder, que já conhecia a história todinha, concordou plenamente. E avisou o Silvio de Abreu: ‘na novela do Benedito não mexa. Nem música, nem texto, nem nada’. O Schroder foi muito leal comigo”, disse.
A exigência de Benedito Ruy Barbosa veio depois que Silvio de Abreu recusou um outro projeto dele, anos antes. E se mostrou mais um acerto do autor, já que Abreu havia feito intervenções em Babilônia (2015) que pioraram a novela.





